terça-feira, 2 de outubro de 2012

Uma noite com meu escritor

Alguma hora da noite, Ipanema.
Antes de começar a escrever sobre este dia, confesso que pensei por algumas horas se realmente seria justo expor um dia que, para mim, foi tão especial. Passe uma boas horas na mesma mesa que o seu escritor predileto, e entenda o que eu digo.

Entrou discreto no restaurante em que estávamos, já puxando uma cadeira. Sentou a alguns centímetros de mim, o que não fez a menor diferença para a minha animação. Já o conhecia pessoalmente, já até ganhara ingressos - da forma mais desprogramada possível - de suas doces mãos para um café literário do qual participou na FLIP. Por muito tempo o li, tentei decifrá-lo e até o entendi (em breves capítulos), mas nunca, na história da humanidade, pensei que conversaríamos bêbados (ele de vinhos, eu de sono) em uma mesa de restaurante.

Para mim, ele não é um Drummond, um Rubem Braga ou um Veríssimo. É a compilação de cada um deles, com o senso crítico do Lima Barreto, filosofias freudianas e A CARA do Thom Yorke! Tem a malandragem boêmia de Fernando Sabino ao descrever em "O Encontro Marcado" o fundamental processo de transitoriedade entre infância e vida adulta, o qual todos já passamos, ou passaremos. Como Rubem Braga, destrincha o Rio de Janeiro num jogo de palavras envolvente, que faz qualquer um se apaixonar pela cidade suja. É linda sua literatura!

Quando boa parte dos amigos da mesa partiram, só sobraram eu, ele e mais três. É claro que eu era a figurante da cena, mas quem se importa? Agora ele estava do meu lado!
Num ímpeto de tentar mostrar meu amor pelo que escreve, falei:

- Por favor, diga que você escreve para mim.
Ele me olhou sem sorrindo, esperando que me explicasse. Então completei:

- Sim, você escreve para mim. Porque eu tenho CERTEZA que é para mim cada palavra que você publica. Sei que você já disse em uma entrevista que escreve para si próprio, mas você escreve para mim! -
Fitando meus olhos, super concentrado no que eu dizia, lançou a resposta mais profunda daquela noite:

- Isso é muito bonito! Quer dizer que somos um só,´pois o que escrevo para mim, te atinge diretamente. É muito bonito! -
Nem preciso dizer que infartei no mesmo momento.

Depois dessa, ouvi seus inúmeros conselhos sobre jornalismo, os quais me iludiam e desiludiam a cada frase.

- Luani, você tem que amar o jornalismo! Ame-o como um namorado, porque ele também vai lhe fazer sofrer. 

- Então seria meu namorado canalha?

- Exatamente! Mas se você realmente gosta, faça.

Enquanto pronunciava meu nome, me perdia mentalmente na série de perguntas que surgiam como gremlins em meu cérebro. "O que estou fazendo aqui? Só tenho dezessete anos!" "Por que ele presta atenção no que eu falo? Sou uma criança aos seus olhos." "Como vou voltar pra casa? Não tenho dinheiro pra táxi até a Ilha do Governador. AI MEU DEUS!!" "Não quero ir embora, ele nunca mais vai ser tão legal comigo como está sendo agora. Será?"
E após horas de muito papo sobre jorns, books, and everything, era hora de partir. Me despedi com um abraço carinhoso e um aperto nas duas mãos. Ele, todo humilde me disse:

- Querida, muito obrigado pelo seu carinho, e boa sorte nas escolhas!

Eu, perplexa em sua capacidade de ser gentil e inteligente ao mesmo tempo, me despedi dizendo:

- Obrigada você, por isso tudo! - (Imaginem meus olhos brilhando, minhas pernas tremendo e uma voz gritando em minha cabeça "VOCÊ ACABOU DE JANTAR COM O SEU ESCRITOR PREDILETO! MORRA!")

Fui embora, para o ponto de um ônibus que poderia nunca ter chegado, acreditando plenamente que, naquela noite fria de Ipanema, fomos sonhados por outros que dormiam. Que a nossa última noite jamais terminaria.

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